A RESISTÊNCIA BORDADA NA MARGEM: UMA ANÁLISE DE PERSONAGENS FEMININAS EM CONTOS DE SINDIWE MAGONA E DE LÍLIA MOMPLÉ
Literatura africana; Escrevivência; Feminilidade; Sindiwe Magona; Lília Momplé.
Nos contos “Joyce”, “Atini” e “Leaving”, da coletânea Living, Loving and Lying Awake at Nightde (1991), da escritora sul-africana Sindiwe Magona, traduzidos por Ramalho (2020), e “Caniço” e “Sonho de Alima”, do livro Antologia de Contos (2013), da escritora moçambicana Lília Momplé, as autoras constroem personagens femininas para dar voz e vez a história de Moçambique e África do Sul contada de dentro para fora. Este trabalho busca responder à seguinte problematização: como as autoras constroem as personagens femininas em seus contos? Para além da escrevivência, ambas compartilham o interesse em denunciar os efeitos do colonialismo, especialmente a desigualdade econômica, racial e de gênero nos contextos africanos. Os temas abordados são sensíveis, pois trata mulheres negras africanas que vivem em um espaço historicamente marginalizado e que atuam subempregos, principalmente no trabalho doméstico, lutando, de diferentes formas, pela sobrevivência. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, bibliográfica e comparativa contra-hegemónica, voltando à análise da literatura feminina africana. O corpus analítico, além dos textos literários, mobiliza contribuições teóricas de Brugioni (2019), Martins (2021), a Hampâté Bâ (2010), Evaristo (2020), Chimamanda Adichie (2021), Yèrónkẹ́ Oyěwùmí (2004), entre outros e outras. As escritoras analisadas integram um grupo fundamental da produção literária africana que expõe o modo como as mulheres percebem e reelaboram suas próprias questões e problemas. Suas obras transgridem, de forma estratégica e significativa, as lógicas hierárquicas, hegemônicas e paternalistas que desumanizam e subalternizam seus corpos e subjetividades, demonstrando, por meio da escrita, expressões do feminismo africano que extrapolam a feminilidade hegemônica.