A PEQUENA SEREIA: A RELAÇÃO ENTRE PODER E VOZ
Análise do Discurso; Cinema; Enunciação; Feminismos; Gêneros discursivos.
Esta pesquisa, inserida na área de Análise do Discurso e Linguagem, investigou a voz da personagem Ariel nas versões cinematográficas de A pequena Sereia (1989, animação dirigida por Ron Clements e John Musker; 2023, remake em live-action dirigido por Rob Marshall), compreendida como construção discursiva atravessada por relações de gênero, raça e poder. A questão-problema que orientou o estudo foi: quais sentidos habitaram a voz de Ariel nas versões de 1989 e 2023 do filme? A investigação partiu da compreensão de que a voz não constituiu apenas um fenômeno sonoro, mas uma enunciação socialmente situada, capaz de revelar limites, possibilidades e disputas de fala historicamente atribuídas aos corpos femininos. O objetivo geral consistiu em analisar de que modo a voz de Ariel se configurou como prática discursiva concreta, identificando e sistematizando os sentidos que circularam, se transformaram e se reconfiguraram nas enunciações verbais, musicais e visuais, entendidas como instâncias ideologicamente determinadas e produzidas em contextos históricos e culturais específicos. A pesquisa justificou-se pela relevância acadêmica e social de compreender como produções culturais de ampla circulação contribuíram para a construção e circulação do imaginário social sobre gênero, corpo, raça e voz, influenciando processos de identificação, reconhecimento e exclusão simbólica. O referencial teórico articulou a perspectiva dialógica da linguagem de Bakhtin (1981), mobilizando os conceitos de enunciação, dialogismo, gêneros discursivos, heteroglossia e forças centrípetas/centrífugas. Complementarmente, dialogou-se com teorias feministas de Beauvoir (1949), Butler (1990), hooks (1984) e Spivak (1988), subsidiando a reflexão crítica sobre silenciamento, agência enunciativa e representações racializadas. Metodologicamente, adotou-se a Análise do Discurso de orientação dialógica com abordagem qualitativa interpretativista. Foram analisados 21 fotogramas distribuídos em quatro cenas centrais: Fotograma 1 (Contrato 1989: 6 imagens), Fotograma 2 (Contrato 2023: 6 imagens), Fotograma 3 (Recuperação 1989: 5 imagens) e Fotograma 4 (Recuperação 2023: 4 imagens). A análise desenvolveu-se em três níveis: verbal, verbo-visual e ideológico. Os resultados demonstraram que, em 1989, a voz se configurou como regulada por normas patriarcais, valorizada principalmente quando reconhecida pela ordem romântica e masculina. Na versão de 2023, a voz foi restituída como ato público, dialógico e politicamente situado, atravessado por marcadores raciais e por agência própria, promovendo ressignificações significativas do papel da personagem e do imaginário social. Concluiu-se que a voz de Ariel constituiu-se como espaço discursivo em disputa, revelando tensões históricas, ideológicas e culturais sobre gênero, raça e poder. A pesquisa evidenciou a fecundidade do diálogo interdisciplinar entre Análise do Discurso, Linguística, Estudos Feministas e Cinema, oferecendo contribuições metodológicas e teóricas para estudos futuros sobre representação, enunciação e circulação de sentidos no audiovisual contemporâneo.