SABERES EM ELIANA ALVES CRUZ: o (re)existir negro e a escrita literária contra-hegemônica amefricana em A vestida
A Vestida. Eliana Alves Cruz. Racismo. Literatura negro-brasileira. Ancestralidade. Amefricanidade. Escrevivência.
A coletânea de contos A Vestida (2022), da escritora Eliana Alves Cruz, aborda temas como ancestralidade, afetividade, memórias, vivências, resistências e as dificuldades enfrentadas pelas corporificações negras. Composta por 15 contos literários negro-brasileiros, a obra permite questionar o legado do passado colonialista e as suas consequências na atualidade. A autora expõe, de forma incisiva, questões como o racismo, o sexismo e o patriarcado, destacando as opressões sofridas por pessoas negras desde o período escravagista pela supremacia branca. A Vestida desafia o ideário do “Eu” hegemônico, frequentemente usado como parâmetro para definir existências, e permite uma leitura contra-hegemônica, da qual esse trabalho se vale e para a qual o conceito de Amefricanidade de Lélia Gonzalez é essencial. Além disso, as experiências negras presentes na obra são analisadas em diálogo com o conceito de Escrevivências (2020), de Conceição Evaristo; Amefricanidade e racismo por denegação (1988), de Lélia Gonzalez, e com a noção de Tempo Espiralar (2021), de Leda Maria Martins, que reconhece a memória como um Movimento Espiralar contínuo, entrelaçando passado, presente e futuro. Almeja-se, a partir da análise contribuir para uma compreensão mais profunda das vozes negras e suas narrativas, que destaca o poder transformador da memória, da ancestralidade e das experiências negras. Assim, a narrativa de Eliana Alves Cruz evidencia uma tessitura contracolonial que valoriza a resistência, subjetividades, cosmogonias, e experiências negras num fluxo temporal dinâmico e regenerativo possibilitando o diálogo entre literatura e racismo, propondo uma literatura que ao desafiar as visões e valorizar temporalidades e saberes negro-brasileiros se faz fundamental para a cena literária brasileira.