“O amor como apologia do sofrer: um estudo antropológico da vida amorosa de quatro
mulheres negras numa perspectiva interseccional”
Gênero; Raça; Afetividade, Subjetividade.
O tema de nossa pesquisa, em síntese, é a vida amorosa de mulheres negras e seus
entrelaçamentos com os conceitos de gênero, raça, classe e subjetividade. O tema nasce da atuação em clínica psicanalítica, onde ao receber pacientes, percebo a grande frequência com que mulheres procuram o serviço de saúde mental, por causa de seus sofrimentos associados a relacionamentos amorosos.
Esta “modalidade de sofrer”, é importante que se diga, não é exclusiva de mulheres negras; porém o
que me fez estabelecer o recorte neste segmento, foi a percepção de que, nestes casos em específico, não só
atuam os dispositivos de gênero que impelem às mulheres a tudo suportarem para se manterem nas relações, ou fazerem-se desejáveis de modo a atrair o tão sonhado par romântico, ao que me parece, há na circulação do romantismo amoroso, um dispositivo em si mesmo, generificado através da lógica patriarcal, que se impõe num certo padrão de formas de amar, prescritas para homens e mulheres, no caso das mulheres, seu dever passa a ser, nesta perspectiva, uma luta permanente para ter e manter as relações, como forma de se autoafirmarem socialmente, em outras palavras, as mulheres em nossa sociedade parecem estar submetidas à normas sociais que só as leem enquanto “realizadas” socialmente, caso estejam em relacionamentos sólidos, e preferencialmente, se relacionando com homens. Mulheres negras, são impactadas ainda mais pelo peso social de sua classe; por habitarem um corpo socialmente significado como pejorativo através do racismo; e ainda, como veremos, quando o gênero que expressam não é o normativo, isto também lhes é imposto como dificuldade no campo amoroso, lhes causando grandes cargas de sofrimento, e prejuízos diversos. Disto resulta, que nosso ponto de partida é a implicação das formas de opressão de gênero, raça, e classe, e quais seus efeitos psíquicos e subjetivos na vida e nas relações afetivas de mulheres negras. Nosso objetivo é expor as histórias de quatro mulheres negras, de formas diversas de gênero e
sexualidade, de modo a acompanhar o quanto suas vidas amorosas são impactadas por estes fatores, e o quanto isso lhes custa do ponto de vista de sua saúde mental e física. Não temos aqui pretensões universalistas ou hegemonizantes das experiências de mulheres negras no campo do amor, sabemos que trajetórias são sempre únicas e individuais, e que os fatos com os quais nos encontraremos adiante, não encerram o que pode a mulher negra em nossa sociedade. Inversamente, pretendemos, ao analisar suas trajetórias irmos descobrindo, ao passo do caminho das interlocutoras, como comparecem nas suas trajetórias, o racismo, o machismo, e a homofobia; levaremos em conta ainda os nossos sistemas atuais de prescrições sociais, no campo do poder disciplinar para o campo do amor. Outro ponto importante da presente pesquisa é o conteúdo subjetivo e emocional relatado nas entrevistas, como partimos da clínica psicanalítica enquanto campo, algumas considerações a respeito da saúde mental inevitavelmente estarão presentes. Sustentamos que esta perspectiva psíquica, é indissociável do universo traumático a que nossas interlocutoras estão submetidas, e, sendo este um fator muito omitido em relação a este público (pessoas negras em geral), assumiremos uma interseção da saúde mental na análise como fundamental para a compreensão dos fenômenos. Não saberia dizer, se com isso, estudamos algo do campo do parentesco em si, como se compreende na Antropologia, o estudo das formações familiares e uniões maritais nas sociedades. Em alguns momentos, me parece que tratamos mesmo das dificuldades de certos grupos de mulheres, em formarem famílias ou simplesmente receberem afeto. Advindas de uma sociedade colonizada como a nossa, as prescrições de gênero, raça e classe se impõem no cotidiano, mesmo no campo das relações amorosas, sobretudo neste campo, pois lembramos aqui, que casamento e conjugalidade, em nossa sociedade, por mais que os romantismos da cultura signifiquem como puramente afetivos, na verdade são ainda aparatos legais de herança, patrimônio e fator de status social, além de ser permeado das questões em si da sexualidade, das quais trataremos também no decorrer desta pesquisa. O que ficou aparente nas entrevistas, é que quando as mulheres recusam o padrão branco-hétero-magro-feminino da sociedade, elas são rejeitadas. Ou simplesmente quando não estão dispostas a aceitar e obedecer, em especial nos relacionamentos heterossexuais, elas são desrespeitadas. Nossas interlocutoras são quatro jovens mulheres negras, ex pacientes do meu trabalho na clínica psicanalítica, com idade entre 23 e 33 anos de idade, todas de classe média baixa, com ensino superior completo ou cursando, todas são mulheres cisgênero, sendo uma sapatão, uma bissexual, uma pansexual e uma heterossexual todas estas categorias foram autoatribuídas, no decorrer das entrevistas. Todas passaram por entrevistas semiestruturadas, gravadas em áudio, que foram realizadas presencialmente ou online, de onde provém a maioria de nossas informações de campo, que serão complementadas apenas quando necessário, com informações prévias, adquiridas das suas sessões de terapia, sempre contando com o consentimento das mesmas, protegendo suas identidades, e as das pessoas por elas citadas. Todos os nomes citados no decorrer deste texto são fictícios.